sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Artes Liberais e Maçonaria: O Trivium!

                 
 O estudo das Artes Liberais é fundamental para a compreensão do Grau de Companheiro no Rito Francês de Referência. Esta terminologia define uma metodologia de ensino, organizada na Idade Média, cujo conceito foi herdado da antiguidade clássica. Referem-se aos ofícios, disciplinas acadêmicas ou profissões desempenhadas pelos homens livres. Eram compostas pelo Trivium (lógica, gramática e retórica) e pelo Quadrivium (aritmética, música, geometria e astronomia). As Artes Liberais eram opostas às Artes Mecânicas, consideradas próprias aos servos.
  O Trivium concentra o estudo das três primeiras Artes relacionadas à mente e à Linguagem. Já o Quadrivium engloba o ensino por meio de quatro ferramentas relacionadas à matéria e à quantidade. O Trivium e o Quadrivium eram a porta de entrada para o ensino superior que, naquela época, tinha como as principais formações: Medicina, Direito e Teologia.
  Na antiguidade clássica, Aristóteles definiu as Artes Liberais como “a capacidade de produzir com raciocínio reto”. Assim sendo, o domínio das sete artes liberais tornaria o homem capaz de produzir obras e idéias com poder de elevar o espírito humano para além das trevas da ignorância e da superstição, rumo a um entendimento livre e racional da verdade. 
 A linguagem é o que nos distingue dos animais. O que nos faz  racionais é a linguagem e a razão. Para os gregos “linguagem”, “razão”, “pensamento”, “palavra” e “verbo” tinham um só nome: Logos. Neste sentido, o Trivium é a Arte do Logos, ou seja, a ciência da palavra escrita, falada e pensada.
 Para Rizzardo da Camino (Simbolismo do Segundo Grau, p. 111) “a comunicação é a razão do viver. O homem isolado, encarcerado, aproxima-se muito do ser inanimado”. A ausência da capacidade de comunicação seria, portanto, para Camino “a definição da morte, de uma vida vegetativa”.
 O Trivium é composto por três ciências relacionadas a comunicação: Gramática, Retórica e Lógica. Cada uma delas está relacionada a um aspecto do Logos e desenvolvem um aspecto correspondente em nossa mente.
 Para Alcuíno de York, o Trivium é um método de compreensão que se vale da leitura e do entendimento dos textos e do espírito humano. Seu objetivo prático é ensinar a pensar bem, ler bem, escrever bem e falar bem. Para o Companheiro, o Trivium é uma ferramenta fundamental para o aprimoramento moral e intelectual durante todas as etapas da Jornada Maçônica.
  Etmologicamente, a palavra Gramática se origina do grego, Grammar que significa “letra”. Literatura, por sua vez, se origina do latim, litera também significando “letra”. Ambas, portanto, significam a “Arte das Letras”.
  No Trivium, o estudo da gramática envolve a literatura, ou seja: o que se faz com as letras em prol da comunicação. O enfoque não reside nas regras gramaticais que é pressuposto da Literatura. Logo, o Companheiro deve empregar a Gramática para produção literária, para a análise e estudo.
  Assim sendo, podemos definir a gramática como o uso adequado das letras com o objetivo de falar e entender bem, escrever e ler bem. Percebe-se que a interpretação (arte da exegese) é a base da gramática. Em resumo: Todo conhecimento se inicia na gramática, ela é a fundação do Trivium! 
  A retórica é a arte de discursar bem e escrever bem, afinal um bom discurso pode ser escrito. O objetivo da retórica é a persuasão. Para Raymundo D´Elia Júnior (Cinquenta Instruções de Companheiro, p. 139) a retórica é arte consequente da Gramática que, somada à Lógica, fornece as bases para que todo Maçom possa se tornar um bom Orador.
  Para Rizzardo da Camino (p. 123) o Orador e o Poeta não podem ser fabricados. Entretanto, a dedicação ao estudo e à prática suprem a ausência do dom. Neste sentido, as Lojas Maçônicas são autênticas “Oficinas de Retórica”.
   Em linhas gerais, na Gramática, há uma ênfase na comunicação dos significados do que é transmitido. Na retórica a preocupação é com a transmissão do conteúdo de maneira eficiente e persuasiva. Neste sentido o estilo, a forma e o tom passam a ter importância como linguagem discursiva com o objetivo de despertar emoção e convicção no interlocutor.    
  A Lógica (ou Dialética) é a arte de expor, dissertar, depurar e restringir significados para que o entendimento entre autor/orador e leitor/ouvinte seja dado de forma exata e rigorosa. Pode ser definida como a arte de teorizar.
 Para Rizzardo da Camino (p. 125) “um raciocínio lógico não é ação de qualquer pessoa; as conclusões da razão devem porvir de uma mente treinada e reflexiva (...) A Lógica sustenta as Leis da Filosofia e juntamente com a Gramática e a Retórica dão formação a personalidade do Companheiro.
  Tanto a Retórica quanto a Lógica são formas de discurso, de operar a linguagem de diversas formas. Tais diferenças são explicitadas por Alcuíno de York: “A dialética está para a retórica assim como, na mão, o punho fechado está para a palma aberta. Aquela conclui os argumentos numa breve oração; esta pelos campos da eloquência discorre com um verbo. Aquela contrai o discurso; esta o distende. A dialética é mais aguda no descobrimento da matéria; a retórica é mais eloquente para falar o que foi descoberto; aquela visa às pessoas estudiosas; essa frequentemente é dirigida ao povo.
 Como visto, a prática e o aprimoramento das artes integrantes do Trivium é tarefa para toda a vida Maçônica. Elas são ferramentas imprescindíveis em nossa condição de construtores sociais e adversários de todas as formas de obscurantismo, fanatismo, ignorância e totalitarismo. 

REFERÊNCIAS:

ARLS LIBERDADE E AMOR nº 0828. Maçonaria e Geometria. https://liberdadeeamorcassia.mvu.com.br/site/maconaria-e-a-geometria/DqxkTTrSokA-3/nta.aspx, acesso em 23/07/2018.
ARTE REAL: Trabalhos Maçônicos. https://focoartereal.blogspot.com/2015/09/a-maconaria-e-as-sete-artes-liberais-e.html, acesso em 23/07/2018.
DA CAMINO, Rizzardo. Simbolismo do Segundo Grau ‘Companheiro’. 3ª Edição. Rio de Janeiro: Editora Aurora, 1976.
D´ELIA Júnior, Raymundo. Maçonaria, 50 Instruções de Companheiro. São Paulo: Madras, 2017.
ESCOLA DE ARTES LIBERAIS: http://escoladeartesliberais.com.br/trivium-arte-da-palavra - Trivium: A Arte da Palavra de Thiago Brum Teixeira. Acesso em 20/07/ 2018.
GRANDE ORIENTE DO PARANÁ: Ritual do Companheiro Maçom. Tradução do Ritual “Cahier Du Grade de Compagnon au Rite Français”, 2012. Curitiba, 2016.
JOSEPH, Miriam. - O Trivium - As Artes Liberais da Lógica, Gramática e Retórica. Tradução de Henrique Paul Dmyterko. São Paulo: É Realizações, 2008.
METAÉTICA: Filosofia pura e Simples. Artes Liberais: Trivuim e Quadrivium. https://metaeticasite.wordpress.com/2017/06/12/artes-liberais-trivium-e-o-quadrivium acesso em 19/07/2018, acesso em 18/07/2018.

sábado, 9 de junho de 2018

Até o Tucum e além...

Pico Paraná visto do Cerro Verde.

A idade vai chegando, os compromissos se avolumando e eis que a maioria das peregrinações ao Templo acabamos por fazer no mundo dos sonhos, o que sempre é uma experiência mágica! Na última década e meia, felizmente, consegui manter uma freqüência montanhística compatível com minhas possibilidades...

Pois bem. Faziam mais de cinco anos que não visitava a maior Cordilheira do Sul do Brasil... A última empreitada (em companhia dos Irmãos Marcos Huss e Rubens Negrão) foi um perrengue danado e tivemos que abortar a missão no Camapuã. O Tucum e o Cerro Verde ficariam para outra oportunidade...

Recentemente, o Lucão resolveu regressar ao Ibitiraquire. Como ele já havia feito o Pico Paraná comigo em 2010, não foi difícil convencê-lo a descortinar o privilegiado horizonte do Tucum. Quase convenci a galera a fazer a clássica Travessia Tucum-Itapiroca que só não arriscamos por razões de logística.


Espírito Livre Montanhismo. 

Seguindo a velha tradição do montanhismo pé-vermelho, passamos a noite “na boleia” para amanhecer no pé da Serra no dia 21 de Abril. Na ocasião, o Lucas apadrinhou seu amigo Wesley que, apesar da animação, conseguiu roncar da Serra do Cadeado até Curitiba! O Gambiarra nos encontraria no Posto Túlio.

Chegamos na Fazenda da Bolinha perto das 8:30. Devo registrar que a infra-estrutura da propriedade melhorou muito deste 2009, ocasião em que alcançamos o cume do Ciririca em condições climáticas totalmente alucinantes! O fluxo de Montanhistas também aumentou surpreendentemente para quem já passou o final de semana sozinho naquelas paragens. Os tempos são outros...

Fincamos o pé na trilha às 9:20. A sinalização melhorou bastante e, sem maiores percalços, atingimos o cume do Camapuan às 10:30. Fizemos uma pausa para lanchar e contemplar o maravilhoso panorama do Pico Paraná sob um céu de brigadeiro...  Sem dúvida, gozaríamos de um Sábado de Paz e Bençãos!


Eu e o Lucão no cume do Camapuã.

Seguimos. Durante a procura pela “mina da gruta” (nas encostas do Tucum) conhecemos um casal de Curitiba (Rafael Picolotto e Fernanda) que trilhou conosco dali em diante. Chegamos ao Cume perto do meio dia e montamos o acampamento. Animados, partimos para o Cerro Verde as 12:30 - sorte que é inverno!

A descida do Tucum é consideravelmente íngreme e o visual é maravilhoso. Trilhamos em alta velocidade, afinal, metade da equipe estava de ataque. Logo chegamos ao fundo do Vale. Daí em diante há vários pontos confusos. Fizemos as escolhas certas e alcançamos o cume do Cerro Verde perto das 13:30.

Ficamos ali uns 30 minutos. Fizemos um lanche e conversamos com o trio que estava fazendo a Travessia Tucum-Itapiroca. Eles, por sinal, confirmaram o que nossos olhos suspeitavam: Do cume do Cerro, estávamos mais próximos da Fazenda do Dilson do que da Bolinha... Assinamos o Livro e voltamos!


Retorno do Cerro Verde: Ao fundo, o Tucum!

Devido a pressa, acabamos pegando a trilha para o Pico do Luar e Ciririca. Felizmente, logo percebemos o equívoco...  Não foi fácil subir a encosta do Tucum. Entretanto, a visão daqueles horizontes fantásticos revivificava nosso Corpo e Espírito. O processo tinha um caráter verdadeiramente Iniciático...

De regresso ao cume do Tucum, comemoramos o sucesso da empreita e nos despedimos de nossos Confrades. O pôr do sol foi deslumbrante. As nuvens logo descortinaram maravilhosas constelações. As luzes das cidades do Litoral e da Grande Curitiba também foram alvos de nossa admiração...

Muitos estavam na Serra para acompanhar uma chuva de meteoros que foi confirmada por volta das 3:00 horas da madrugada. Saí para contemplar o belíssimo fenômeno, apesar do vento e do frio intenso... O Lucas e o Wesley permaneceram em sono profundo, apesar da nossa discreta atividade...

No Domingo, contemplamos o Alvorecer, emoldurado pelo nosso Templo Maior. Fizemos um lanche rápido e pé na trilha! Às 8:15 já estávamos no Camapuan. Voltamos mais uma vez nossos olhares para aquele Éden Abençoado... Louvores rendemos ao Eterno e, com o Espírito transbordante, começamos a descer...

9:30 chegamos na Fazenda completando 25 km de uma caminhada inesquecível. Passamos uma água no rosto e rumamos para Curitiba, onde almoçaríamos no Madalozzo antes de retornarmos a nossa amada Terra Vermelha...


Uma imagem para guardar na memória...

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Remando no Lago San Fernando!

Thomas remando no Lago São Fernando de Rolândia.

Sempre fui um amante do Lago São Fernando e defendi sua conclusão durante o segundo mandato de José Perazolo. Nosso Lago é formado pelas nascentes do Ribeirão Marabu, afluente do Ribeirão Cafezal (manancial de abastecimento de Londrina). Registre-se que não há qualquer ligação clandestina de esgoto ou galerias pluviais no local. Trata-se de um Lago formado (praticamente) por água mineral! Sempre defendi seu uso para a prática de esportes aquáticos e ontem estive lá, iniciando meu filho Thomas na canoagem. Fantástica experiência. Nosso Lago também tem potencial para sediar provas de natação... Quem sabe um dia?  

quinta-feira, 17 de maio de 2018

A Travessia dos Lagos Igapós!

Por do sol no Igapó 01


Já faz algum tempo que não encontro tempo para escrever em nosso Blog. Como regresso, compartilho minhas últimas vivências em um dos mais importantes e belos postais de Londrina: o Lago Igapó, inaugurado em 1959 na gestão do Prefeito Antônio Fernandes Sobrinho. Então, mãos à obra!

O Lago possui 438 mil m2 e foi concebido como alternativa para amenizar  a baixa umidade do ar (durante o outono e inverno) e o problema de drenagem causada por uma barragem natural de basalto. Inicialmente pensou-se em dinamitar a rocha, mas a ideia de formar um lago no Ribeirão Cambezinho prevaleceu. Ainda bem: Dá para imaginar a paisagem de Londrina sem o Lago Igapó?

Pois bem. Há pouco mais de um mês, fui convidado por meu cunhado Lucas Zerbinati para remar, em seu caiaque inflável, o Lago Igapó. Imediatamente, aceitei o convite. Em nossa primeira empreitada, partindo do lado leste, remamos a margem oeste e a baía do Córrego Capivara em pouco mais de uma hora.

Não preciso dizer que adorei a brincadeira! Contemplar Londrina emoldurada pelas águas do Igapó é uma experiência única. Animado, perguntei ao Lucão se ele já havia remado o Lago 2. Como a resposta foi negativa, definimos nosso próximo objetivo: Remar o Igapó 2 no Domingo seguinte...

Como chegamos tarde em Londrina, saímos remando forte e quase encalhamos no assoreamento existente na foz do Córrego Água Fresca. Passamos raspando na tubulação que atravessa o Lago e seguimos adiante (é melhor transpor a tubulação pela margem oposta, mas o ideal seria a Sanepar rebaixar os tubos)!

Transposição da Av. Ayrton Senna.


Como o sol ainda brilhava, seguimos cautelosos rumo aos túneis da Av. Ayrton Senna. Verifiquei a profundidade e decidimos atravessá-los. Alcançamos, sem maiores percalços, o canal do Aterro e seguimos remando até a barragem do Igapó 3. Foi neste momento que nasceu a ideia da Travessia Interigapós!

Para completá-la (saindo das imediações do Jd. Versalhes, viaduto da Rua Ana Porcina de Almeida) sabíamos que teríamos que fazer a transposição da Av. Faria Lima por cima e da barragem da Higienópolis por baixo já que, para nossa alegria, a transposição da Castelo Branco e Ayrton Senna estão em nível...

Definido o objetivo, no final de semana seguinte, partimos para a ação. Estacionamos o carro nas proximidades da Rotatória do Gandhi, inflamos o caiaque e saímos à procura de um ponto de partida na região. Ativei o Strava pouco antes do Viaduto da Ana Porcina e começamos remar pelo Cambezinho...

Optamos por navegar sem quilha, diante do grau de assoreamento. Mesmo assim, foi possível remar, após a transposição de alguns galhos, até a foz do Córrego Baroré onde há um grande assoreamento. Nas proximidades da Fábrica 01, instalamos a quilha e atravessamos o viaduto da Av. Castelo Branco por baixo.

No Lago 3 a remada fluiu bem até a Av. Faria Lima onde fizemos a transposição por terra e ingressamos em águas antes navegadas... Como conhecíamos todos os pontos de assoreamento existentes no canal do Aterro e no Igapó 2, decidimos acelerar... Logo chegamos à barragem da Avenida Higienópolis!

Descemos a barragem e alcançamos o Igapó 01 por baixo do Viaduto. Remamos pela margem oeste (sem fazer a baía do Córrego Capivara) até a barragem. Como havia tempo, abortamos o Uber e decidimos remar de volta! Quando os últimos raios de sol brilhavam no horizonte, alcançamos o Igapó 3 (que alguns chamam erroneamente de Igapó 04) e ancoramos na margem oposta à foz do Córrego Baroré, completando assim 11 km de pura emoção... Valeu Lucão!

Lucão na Rotatória do Gandhi, Jardim Versalhes.