sábado, 21 de fevereiro de 2026

Pico Jurapê: A Montanha de Schmalz!

Pico Jurapê, em Joinville

11 de fevereiro demos sequência a nossa peregrinação anual pela Serra do Mar Norte Catarinense, aproveitando nossa estadia em Guaratuba. A montanha da vez foi o Jurapê (1.149 metros s.n.m.), berço do montanhismo catarinense e considerada uma das mais difíceis do Estado, pelos montanhistas vizinhos. 

No dia anterior, estive em Morretes realizando boia cross com a família no Nhundiaquara. A previsão para o dia seguinte estava ótima. Acordei as 6h e fui para a sacada de onde observei uma visão perfeita dos contrafortes da Serra do Quiriri: Acordei o Thomas, arrumamos a mochila e pé na estrada!
Chegamos ao início da trilha seguindo o Maps e logo identificamos a porteira. Fomos seguindo a intuição (estou nessa vibe primitiva há mais de 20 anos, pois ainda não comprei um GPS). Fiquei aliviado quando encontrei a segunda porteira com uma placa da prefeitura sobre cuidados com os macacos. Já eram 9h.


Thomas fazendo macaquices

O capim estava alto e o Thomas foi seguindo o caminho mais batido. Chegamos a um córrego e a trilha sumiu. Fizemos uma varredura e encontramos apenas as mangueiras que abastecem o sítio. Seguimos rio abaixo e saímos em uma caixa d´água de onde se observa a propriedade rural, ou seja: Fim da linha!
Subimos uns 70 metros rio acima e nada de trilha. Perdemos uns 40 minutos e notei que o Thomas estava ficando preocupado. Falei para ele que, como não tínhamos GPS, o jeito era voltar até a placa do macaco e procurar a trilha certa. Fui na frente e antes de chegar à porteira notei um rastro à direita...
Parei, olhei e notei uma fita desbotada. Era por ali.  Alguns metros à frente deixamos o capim e entramos na Mata Atlântica. Percebi que dali em diante não teria erro, pois é uma trilha consolidada. Aceleramos mesmo sob o calor infernal de verão: Em pouco tempo já estávamos enxarcados dos pés à cabeça!
Notei que o Thomas estava quieto e mais lento que de costume. Disse-me que a pressão estava baixa (justamente o que eu pensei). Pedi para ele se hidratar, diminuí o ritmo e seguimos. Chegamos ao primeiro rio perto das 10h. Paramos, tomamos uma ducha na “cachu” e fizemos um lanche reforçado.

Thomas na cachuzinha

Subimos o lance de correntes e mais um tanto antes de chegar ao primeiro mirante para o Jurapê. Ainda havia um longo aclive pela frente. Logo chegamos ao segundo córrego e dali para cima o Thomas foi valente. O calor intenso somado a alta umidade da mata tornavam a montanha uma verdadeira sauna!

Cume do Jurapê, visto da trilha

Chegamos ao cume próximo às 12h30. Segui a trilha até o mirante de onde se observa uma visão privilegiada de Joinville, cidades do entorno, planície litorânea, baía da Babitonga e parte da ilha de São Francisco. O Thomas foi descansar sob uns arbustos e pus-me a procura da caixa do livro de cume.

Thomas no mirante para Joinville
Fiquei rodeando a área e nada de livro. Consegui um sinal e perguntei a IA onde ela estava, eis a resposta: A Caixa encontra-se no cume, onde há espaço para barracas e debaixo de uns arbustos. Pensei: cacete, aqui não está! Voltei e notei que a trilha continuava descendo. Apesar de não usual, só podia ser ali...
Poucos metros adiante há outro espaço para acampamento (sem mirante, um charco) e a caixa estava lá, sob uns arbustos. Peguei o caderno (na verdade é uma agenda) e como as assinaturas estavam fora de ordem, escolhi a página 20 de dezembro (data de meu aniversário) e registrei nossa passagem por ali.

Assinando o livro de cume

Após 1h no cume o Thomas já estava recomposto e pior: com pressa! Queria passar em uma tabacaria em Joinville para comprar fumo de corda. Partiu na frente, acelerando. Eu fui atrás...  Até disse para ele que daria tempo, mas jovem é foda. Acabei escorregando e bati a costela em um tronco. Levantei e pensei: Isso aqui vai doer umas 2 semanas... Que falta faz uma cargueira nas costas!


Um dos mirantes da trilha

Ao chegar na cachuzinha, paramos. Uma água gelada na costela me fez bem... Comemos o resto do lanche e fumamos. Recompostos, seguimos em bom ritmo. Chegamos ao carro perto das 16h com tempo de sobra para visitar a tabacaria. Como o Thomas estava na boleia, paramos em uma pizzaria onde tomei 1,5 litros de choop em minutos: Um brinde à Montanha de Schmalz!

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Escola Austríaca, Rand e Rush!

 

A cada dia desperto um novo eu. Quem me conhece sabe que não tenho receio algum em mudar de opinião. Aprendi que os fatos sempre se encaixam, por mais desconexos que pareçam. Em cada uma das minhas fases existenciais tive um padrão musical e literário. Todos foram importantes. Fui abandonando o pensamento de esquerda quando tomei contato com a Escola Austríaca de Economia. Neste período, em literatura, foi uma fase de Kundera, Soljenítisin, Kertész, Ayn Rand e, na música: Rush!  Além da genialidade artística, o trio canadense é a síntese musical de minha visão atual de mundo, vida e indivíduo, além de ser um grito atemporal contra todas as formas de totalitarismo: “Saiba que seu lugar na vida, é onde você quer estar!”

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Taipa, Ferraria e Ferreiro: Um ataque memorável!

A equipe no Taipa.

Com o nascimento de meu quarto filho, o alvará de montanha andava curto em casa. Nos últimos meses, além de curtir minha bebê Eva e me dedicar ao jardim, estive imerso nos dramas ambientados nas montanhas dos Cárpatos (anos 30 e 40) por meio das obras do célebre escritor judeu, Aharon Appelfeld.

Quando minha esposa finalmente deferiu o alvará, estabeleci como objetivo percorrer um setor do Ibitiraquire inédito para mim, com um cronograma ousado: Fazer Taipa, Ferraria e Ferreiro de ataque, partindo de Rolândia, após o expediente. Todos os convidados desertaram, menos meu filho Thomas.

Thomas no Pico Ferreiro.

Na véspera, por sugestão de meu cunhado Lucas, convidei Raphael Marques (Gambiarra) de Curitiba, que topou de imediato. A previsão do tempo estava ótima. Sexta à noite fizemos compras, arrumamos as mochilas e partimos. Liguei para o Gambiarra e combinamos o encontro na Fazenda Rio das Pedras.

Ofereci o volante ao Thomas para sua primeira longa viagem. Para ajudá-lo, o velocímetro da Duster não estava funcionando e passamos pelos radares usando a intuição... O menino mandou bem! Só espero que não venham multas... Ligamos para o Gambiarra assim que chegamos na Serra do Purunã.

As 4h30 estacionamos na Fazenda. Gambiarra já nos esperava. Sem enrolação, calçamos as botas e pé na trilha, colocando o papo em dia... Chegamos ao Getúlio antes do alvorecer. Saí sem água, para me abastecer no córrego do Caratuva e, uma vez lá, seguimos o leito seco em busca do precioso líquido...

Alvorecer no Getúlio.

Abastecidos, seguimos para o Taipa onde chegamos às 7h30. Havia um pessoal na pedra do falso cume que fizeram a gentileza de registrar nossa passagem. Após o lanche, seguimos para o Ferraria. A floração das orquídeas Sophronitis coccínea foi um espetáculo que compensou o desgaste físico entre os cumes...

A trilha está evidente para quem tem vivência em Montanha. Não tomamos nenhum perdido, não consultamos aplicativos e chegamos ao Ferraria em cerca de 1h45 de caminhada. Pausa para descalçar as botas, lanchar, preparar o cachimbo e lagartear, afinal estávamos com tempo de sobra...

Thomas e Gambiarra no Ferraria.

Após uma hora naquele belíssimo cenário, partimos rumo ao Ferreiro. Apesar de ser a parte menos frequentada da trilha, não tivemos dificuldades. Talvez, se o tempo estivesse zicado, as coisas teriam sido diferentes... Em montanha há muitas variáveis: estado de espírito, vivência, clima e preparo físico!

Ao chegarmos ao Ferreiro encontramos dois jovens (Matheus e Vinicius) que estavam fazendo a Circular no sentido inverso. Papo vai e o Gambiarra perguntou qual seria a próxima Travessia deles. Pensei que iriam mandar um Marco 22, Alpha-Ômega, Farinha Seca e o Vinicius responde: Serra Grande de Ortigueira!

Dupla promete ser a primeira a repetir a TSG.

Daí em diante foi uma confraternização geral. Eles haviam tomado ciência do desafio montanheiro no Norte do Estado por meio de nosso relato em Alta Montanha. Explicamos que lá o negócio é mais embaixo. Para começo de conversa, a Serra Grande é um sertão, a vegetação é mais cerrada e, para ajudar, a Travessia nunca foi repetida, logo: facão e lima serão indispensáveis!

Nos despedimos dos confrades, tomamos nossos últimos goles de água e partimos para o trecho final. Rapidamente alcançamos a Cachoeira dos Putos para nos esbaldar na água gelada. Seguimos pelo trecho final da Picada do Cristóvão, que já havíamos conhecido em uma incursão do CUME à Janela da Conceição...

Na Cachoeira dos Putos.

Chegamos à Fazenda às 15h. Conforme o planejado, retornamos para dormir em Rolândia, afinal sou muito fresco para dormir com roncadores. O Thomas foi babando todo o percurso. De Ponta Grossa em diante foi uma viagem difícil... No auge dos meus 40 e tantos cheguei à conclusão que mais vale uma noite mal dormida na Serra do que um perrengue na boleia!

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Castelo dos Bugres: O anfiteatro da Serra do Mar Norte Catarinense!

Thomas e eu no cume do Castelo.

Há anos estava ensaiando alguma excursão pelas Montanhas de Joinville por ocasião das minhas férias anuais em Guaratuba. Desta vez, o plano inicial era fazermos o Pico Jurapê (mais exigente da região) mas, como meu filho Thomas convidou dois amigos, Silveira e Pansarini (que nunca haviam praticado montanhismo) acabamos optando pelo belíssimo Castelo dos Bugres.

Este morro é uma formação de rochas graníticas sobrepostas, no alto da Serra do Mar Norte Catarinense (aproximadamente 970 metros s.n.m), cujo acesso se dá pela bela e turística estrada Dona Francisca. O percurso (cerca de 4 km) é marcado por pequenos mananciais de água, exemplares de árvores frondosas e muita biodiversidade vegetal e animal.

Fizemos a trilha em 40 minutos (no ritmo dos jovens) e chegamos ao cume com  boa visibilidade. O alto da formação é um autêntico anfiteatro da Serra, de onde se contempla trechos imensos de Mata Atlântica, parte da Baía de Babitonga, o Jurapê, Morro Pelado, alto da Serra do Quiriri e vales circundantes... 


Thomas e Pansarini contemplando o cenário.

Uma lenda regional afirma que ali existe uma entrada para o centro da Terra -  procuramos, mas não encontramos... Outra narra que, em noite de Lua Cheia, aparece um bugre montado em um cavalo branco. Lendas à parte, ficamos lagarteando no alto da pedra contemplando o fantástico cenário por cerca de 1h quando começaram a aparecer os primeiros montanhistas catarinenses...

Decidimos descer para dar um tchi-bum na gélida cachoeira existente no início da trilha. Chegamos lá em cerca de 35 minutos e aproveitamos bastante! Perto das 12h seguimos para Joinville com a finalidade de comprar fumo de corda e visitar o histórico Cemitério do Imigrante (datado do Século 19) onde diversas personalidades da região estão sepultadas.

Passeando entre as antigas lápides acabamos nos deparando com o jazigo de um dos precursores do montanhismo catarinense: Johan Paul Schmalz que, em 06 de junho de 1886, acompanhado por Bruno Clauser, Hahn, Jacob Schmalz, Otto Delitsch e mais dois sujeitos definidos como “alugados”, atingiram o cume do Jurapê, após três dias de trabalho, abrindo uma trilha pela floresta extremamente cerrada.

Foi uma escalada autêntica, pois subiram a montanha apenas “porque ela estava lá”. O Jurapê é uma montanha estética e imponente, com 1.100m de desnível e terreno íngreme que sempre intrigou Schmalz que era um grande apreciador e conhecedor das belezas naturais da região. Pelo valor histórico, beleza cênica e por ser uma das Montanhas mais desafiadoras de Santa Catarina um dia retornaremos para subir a emblemática Montanha de Schmalz! 


A geladeira dos Bugres