quarta-feira, 3 de junho de 2026

Maçonaria & Companheirismo

 

Pelo título você poderá pensar que encontrará aqui comentários sobre a celebre obra de René Guénon. Não. Tomei o título emprestado apenas para tecer uma breve reflexão acerca de meu aprendizado ao longo de trinta anos na Ordem DeMolay e nove na Maçonaria. Desde os idos de 1996, compreendi o valor do companheirismo. Esta é, aliás, uma virtude cardeal da Ordem DeMolay. Nossas cerimônias não são fórmulas vazias. Elas nos ensinam que não podemos falsear nossos votos, nossa palavra, nossos amigos e irmãos. Durante três décadas tenho me esforçado em viver por este ensinamento. DeMolay e Maçonaria não dizem respeito apenas aos cargos exercidos. É estar ao lado dos irmãos, apoiando e orientando. É discordar no privado, apoiar em público ou permanecer em silêncio quando não for possível falar bem de um Irmão na presença de um não iniciado. Muitas vezes é difícil? Sim. Principalmente quando um irmão nos abandona ou magoa. Mas, observem: Quantas vezes isso não ocorre no seio de nossa própria Família? Pouco tenho lido em nossas publicações (ou ouvido em nossos Templos) sobre o valor que têm o Padrinho em nossa jornada. Jamais se esqueçam: Foi ele quem lhe deu o primeiro voto de confiança. Foi graças a ele que as portas da fraternidade se abriram para você. Desmerecer ou abandonar seu padrinho é como desmerecer a um Pai. Desmerecer o Capítulo ou a Loja que te iniciou por ego ou vaidade é como virar as costas à Família. Sua Loja (ou Capítulo) pode não ser a maior, a mais velha ou mais badalada, mas foi a Loja que lhe recebeu! Foi por ela que você passou a ter um vínculo indelével com a Maçonaria Universal. Lembro-me de uma ocasião em que me perguntaram (com certa ironia) porque eu não havia sido iniciado em tal e qual Loja. Respondi apenas o seguinte: Um maçom iniciado em uma “pequena” loja é menos maçom do que o iniciado em uma Loja maior? Eu creio que não! Não se mede um maçom pelo cargo, Loja, Rito ou Potência. Se mede por sua dedicação à família, aos estudos, à obra e aos irmãos. Em Loja e fora dela! Jamais procure na Ordem cargos, honrarias ou status, pois: Tudo isso é vaidade e vento que passa! Seja grato ao seu padrinho e aos irmãos de sua Loja ou Capítulo mãe - por mais divergências que tenha com um ou outro Irmão. Por fim, registro aqui o meu testemunho: Sempre serei grato ao Capítulo Getúlio Pereira Salerno de Rolândia e à Loja François Voltaire de Londrina. Jamais me esquecerei dos meus padrinhos: Chefe Geraldo Gonçalves Filho (de abençoada memória) e o meu Balú Clodoaldo Machado: Grandes maçons. Grandes escotistas! Muito obrigado de coração.


sábado, 21 de fevereiro de 2026

Pico Jurapê: A Montanha de Schmalz!

Pico Jurapê, em Joinville

11 de fevereiro demos sequência a nossa peregrinação anual pela Serra do Mar norte catarinense, aproveitando a estadia em Guaratuba. A montanha da vez foi o Jurapê (1.149 metros s.n.m.), berço do montanhismo catarinense e considerada uma das mais desafiadoras do Estado, pelos montanhistas vizinhos. 
Em 06 de junho de 1886, Johan Paul Schmalz acompanhado por Bruno Clauser, Hahn, Jacob Schmalz, Otto Delitsch e mais dois sujeitos definidos como “alugados” (creio que foram contratados) atingiram o cume do Jurapê (a montanha mais imponente de Joinville), após três dias abrindo picada pela floresta.
No dia anterior, estive em Morretes realizando boia cross com a família no Nhundiaquara. A previsão para o dia seguinte estava ótima. Acordei as 6h e fui para a sacada de onde observei uma visão perfeita dos contrafortes da Serra do Quiriri: Acordei o Thomas, arrumamos a mochila e pé na estrada!
Chegamos ao início da trilha seguindo o Maps e logo identificamos a porteira. Fomos seguindo a intuição (costumo usar carta e bússola, mas estava sem impressora na praia). Fiquei aliviado quando encontrei a segunda porteira com uma placa da prefeitura sobre cuidados com os macacos. Já eram 9h!
Thomas fazendo macaquices...

O capim estava alto e o Thomas foi seguindo o caminho mais batido. Chegamos a um córrego e a trilha sumiu. Fizemos uma varredura e encontramos apenas as mangueiras que abastecem o sítio. Seguimos rio abaixo e saímos em uma caixa d´água de onde se observa a propriedade rural, ou seja: Fim da linha! 
Subimos uns 70 metros rio acima e nada de trilha. Perdemos uns 40 minutos e notei que o Thomas estava ficando preocupado. Falei para ele que, como não tínhamos GPS, o jeito era voltar até a placa do macaco e procurar a trilha certa. Fui na frente e antes de chegar à porteira notei um rastro à direita...
Parei, olhei e notei uma fita desbotada. Era por ali.  Alguns metros à frente deixamos o capim e entramos na Mata Atlântica. Percebi que dali em diante não teria erro, pois é uma trilha consolidada. Aceleramos mesmo sob o calor infernal de verão: Em pouco tempo já estávamos encharcados dos pés à cabeça!
Notei que o Thomas estava quieto e mais lento que de costume. Disse-me que a pressão estava baixa (justamente o que eu pensei). Pedi para ele se hidratar, diminuí o ritmo e seguimos. Chegamos ao primeiro rio perto das 10h. Paramos, tomamos uma ducha na “cachu” e fizemos um lanche reforçado.

Thomas na cachuzinha

Subimos o lance de correntes e mais um tanto antes de chegar ao primeiro mirante para o Jurapê. Ainda havia um longo aclive pela frente. Logo chegamos ao segundo córrego e dali para cima o Thomas foi valente. O calor intenso somado a alta umidade da mata tornavam a montanha uma verdadeira sauna!

Cume do Jurapê, visto da trilha

Chegamos ao cume próximo às 12h30. Segui a trilha até o mirante de onde se observa uma visão privilegiada de Joinville, cidades do entorno, planície litorânea, baía da Babitonga e parte da ilha de São Francisco. O Thomas foi descansar sob uns arbustos e pus-me a procura da caixa do livro de cume.

Thomas no mirante para Joinville
Fiquei rodeando a área e nada de livro. Consegui um sinal e perguntei a IA onde ela estava, eis a resposta: A Caixa encontra-se no cume, onde há espaço para barracas e debaixo de uns arbustos. Pensei: cacete, aqui não está! Voltei e notei que a trilha continuava descendo. Apesar de não usual, só podia ser ali...
Poucos metros adiante há outro espaço para acampamento (sem mirante, um charco) e a caixa estava lá, sob uns arbustos. Peguei o caderno (na verdade é uma agenda) e como as assinaturas estavam fora de ordem, escolhi a página 20 de dezembro (data de meu aniversário) e registrei nossa passagem por ali.

Assinando o livro de cume

Após 1h no cume o Thomas já estava recomposto e pior: com pressa! Queria passar em uma tabacaria em Joinville para comprar fumo de corda. Partiu na frente, acelerando. Eu fui atrás...  Até disse para ele que daria tempo, mas jovem é foda. Acabei escorregando e bati a costela em um tronco. Levantei e pensei: Isso aqui vai doer umas 2 semanas... Que falta me fez uma cargueira nas costas!


Um dos mirantes da trilha

Ao chegar na cachuzinha, paramos novamente: A água gelada na costela me fez bem... Comemos o resto do lanche e fumamos. Recompostos, seguimos em bom ritmo. Chegamos ao carro perto das 16h com tempo de sobra para visitar a tabacaria. Como o Thomas estava na boleia, paramos em uma pizzaria onde tomei 1,5 litros de choop em minutos: Um brinde à Montanha de Schmalz!

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Escola Austríaca, Rand e Rush!

 

A cada dia desperto um novo eu. Quem me conhece sabe que não tenho receio algum em mudar de opinião. Aprendi que os fatos sempre se encaixam, por mais desconexos que pareçam. Em cada uma das minhas fases existenciais tive um padrão musical e literário. Todos foram importantes. Fui abandonando o pensamento de esquerda quando tomei contato com a Escola Austríaca de Economia. Neste período, em literatura, foi uma fase de Kundera, Soljenítisin, Kertész, Ayn Rand e, na música: Rush!  Além da genialidade artística, o trio canadense é a síntese musical de minha visão atual de mundo, vida e indivíduo, além de ser um grito atemporal contra todas as formas de totalitarismo: “Saiba que seu lugar na vida, é onde você quer estar!”

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Taipa, Ferraria e Ferreiro: Um ataque memorável!

A equipe no Taipa.

Com o nascimento de meu quarto filho, o alvará de montanha andava curto em casa. Nos últimos meses, além de curtir minha bebê Eva e me dedicar ao jardim, estive imerso nos dramas ambientados nas montanhas dos Cárpatos (anos 30 e 40) por meio das obras do célebre escritor judeu, Aharon Appelfeld.

Quando minha esposa finalmente deferiu o alvará, estabeleci como objetivo percorrer um setor do Ibitiraquire inédito para mim, com um cronograma ousado: Fazer Taipa, Ferraria e Ferreiro de ataque, partindo de Rolândia, após o expediente. Todos os convidados desertaram, menos meu filho Thomas.

Thomas no Pico Ferreiro.

Na véspera, por sugestão de meu cunhado Lucas, convidei Raphael Marques (Gambiarra) de Curitiba, que topou de imediato. A previsão do tempo estava ótima. Sexta à noite fizemos compras, arrumamos as mochilas e partimos. Liguei para o Gambiarra e combinamos o encontro na Fazenda Rio das Pedras.

Ofereci o volante ao Thomas para sua primeira longa viagem. Para ajudá-lo, o velocímetro da Duster não estava funcionando e passamos pelos radares usando a intuição... O menino mandou bem! Só espero que não venham multas... Ligamos para o Gambiarra assim que chegamos na Serra do Purunã.

As 4h30 estacionamos na Fazenda. Gambiarra já nos esperava. Sem enrolação, calçamos as botas e pé na trilha, colocando o papo em dia... Chegamos ao Getúlio antes do alvorecer. Saí sem água, para me abastecer no córrego do Caratuva e, uma vez lá, seguimos o leito seco em busca do precioso líquido...

Alvorecer no Getúlio.

Abastecidos, seguimos para o Taipa onde chegamos às 7h30. Havia um pessoal na pedra do falso cume que fizeram a gentileza de registrar nossa passagem. Após o lanche, seguimos para o Ferraria. A floração das orquídeas Sophronitis coccínea foi um espetáculo que compensou o desgaste físico entre os cumes...

A trilha está evidente para quem tem vivência em Montanha. Não tomamos nenhum perdido, não consultamos aplicativos e chegamos ao Ferraria em cerca de 1h45 de caminhada. Pausa para descalçar as botas, lanchar, preparar o cachimbo e lagartear, afinal estávamos com tempo de sobra...

Thomas e Gambiarra no Ferraria.

Após uma hora naquele belíssimo cenário, partimos rumo ao Ferreiro. Apesar de ser a parte menos frequentada da trilha, não tivemos dificuldades. Talvez, se o tempo estivesse zicado, as coisas teriam sido diferentes... Em montanha há muitas variáveis: estado de espírito, vivência, clima e preparo físico!

Ao chegarmos ao Ferreiro encontramos dois jovens (Matheus e Vinicius) que estavam fazendo a Circular no sentido inverso. Papo vai e o Gambiarra perguntou qual seria a próxima Travessia deles. Pensei que iriam mandar um Marco 22, Alpha-Ômega, Farinha Seca e o Vinicius responde: Serra Grande de Ortigueira!

Dupla promete ser a primeira a repetir a TSG.

Daí em diante foi uma confraternização geral. Eles haviam tomado ciência do desafio montanheiro no Norte do Estado por meio de nosso relato em Alta Montanha. Explicamos que lá o negócio é mais embaixo. Para começo de conversa, a Serra Grande é um sertão, a vegetação é mais cerrada e, para ajudar, a Travessia nunca foi repetida, logo: facão e lima serão indispensáveis!

Nos despedimos dos confrades, tomamos nossos últimos goles de água e partimos para o trecho final. Rapidamente alcançamos a Cachoeira dos Putos para nos esbaldar na água gelada. Seguimos pelo trecho final da Picada do Cristóvão, que já havíamos conhecido em uma incursão do CUME à Janela da Conceição...

Na Cachoeira dos Putos.

Chegamos à Fazenda às 15h. Conforme o planejado, retornamos para dormir em Rolândia, afinal sou muito fresco para dormir com roncadores. O Thomas foi babando todo o percurso. De Ponta Grossa em diante foi uma viagem difícil... No auge dos meus 40 e tantos cheguei à conclusão que mais vale uma noite mal dormida na Serra do que um perrengue na boleia!