Manhã de geada, inverno de 1989. Da sacada de sua casa, em Rolândia, um
menino contempla o horizonte. Diante dele, o imenso vale do Tibagi. Plantações
a perder de vista, sítios, florestas e estradas formavam interessantes formas
geométricas, de variadas colorações. Mais além, identifica as silhuetas dos
edifícios de Londrina. Seu olhar ávido e atento segue para o sul e encontra uma
montanha distante, em forma de Pirâmide. Maravilhado, chama sua mãe, mostra a
descoberta e pergunta: Que montanha é aquela? Onde fica? Como se chama? Será
que alguém já subiu lá? A mãe não sabia, mas propôs ao menino que a
batizasse: Parece uma Pirâmide, mãe... E seguiram nomeando as
demais montanhas no horizonte. Décadas se passaram, o menino cresceu e
continuava sonhando com o dia em que pisaria no cume de sua Pirâmide...
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Cume do Ybiangi, 2008. |
Sempre que descia a Graciosa com a família rumo ao
Litoral, o menino extasiava-se com a imponência da Serra do Mar. Sentia uma
espécie de ligação transcendental com as Montanhas, tal como o devoto diante de
um Santuário... Uma placa, em uma das curvas da Graciosa, lhe chamou a atenção.
Ela dizia: “Marumbi, o sonho não acabou”. Perguntou ao Pai o que era o
Marumbi. Ele respondeu: Acho que é aquela Montanha gigante ali! O menino ficou
boquiaberto... Anos mais tarde, ouviu um relato de seu tio que havia encarado
um perrengue no Marumbi. O sonho de ascendê-lo, só foi realizar-se em 2003, no
Abrolhos. Depois vieram Olimpo, Paraná, Caratuva, Itapiroca, mas a Pirâmide de
sua infância continuava no horizonte, incógnita, imponente e desafiadora... Com
o tempo, o jovem formou uma equipe e conheceu outros Montanhistas em Rolândia,
Cambé e Londrina... Todos freqüentavam a Serra do Mar, mas ninguém sabia nada
sobre a Montanha incógnita. Na internet, nem uma foto. Nem um relato. Nenhuma
pista. O mistério persistia...
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Ybiangi visto do Vale do Esperança. |
Em 2006, o jovem se casou e teve seu primeiro
filho. O tio de sua esposa, era marumbinista. Havia cursado Engenharia Mecânica
na Federal do Paraná. Os laços de fraternidade, o levaram a escolhê-lo como
padrinho de seu filho. Moravam no mesmo bairro e costumavam sair para caminhar
ao entardecer. Falavam sobre Montanhas, Literatura, Maçonaria... Em uma tarde
de inverno, o jovem mostra ao compadre a Montanha incógnita: E aquela lá? Como
se chama? Onde fica? Finalmente, recebeu uma pista: Ouvi falar que se
chama Pico Agudo e fica em São Jerônimo da Serra. Pouco tempo depois o
jovem organizou uma expedição com dois amigos, a procura da Montanha. Ao chegar
em São Jerônimo, perguntou pelo Pico Agudo. Informações desencontradas o
conduziram em direção à Terra Nova. Próximo ao Distrito observou o
belíssimo skyline da Serra ao sul. Seguiu perguntando e buscando
estradas que o levassem na direção do Agudo. No alto de um espigão, havia um
carreador que descia para o interior do vale. Como não havia outra alternativa,
lançaram-se ladeira abaixo, com um Fiat uno. Chegaram ao sítio da família
Truber. Foram bem recebidos. Pediram informações. Confirmaram que seria
necessário cruzar o profundo vale do Rio Esperança, afinal o Pico estava em
Sapopema. Ansiosos, meteram a mochila nas costas e lançaram-se
ribanceira abaixo. Caminharam algumas horas até chegar ao fundo do Cânion.
Paredões de ardósia, nas margens do rio, conferiam aos remansos lindíssimos
tons de azul e verde. Apelidaram a paragem de Valfenda. Atravessaram o Rio. A vegetação
era espinescente. Levaram horas até divisar o imponente paredão de um majestoso
Pico. Seguiram na direção da Montanha. Constataram que era a Serra Chata.
Encontraram um caminho precário que levava ao pé do Pico Agudo. Chegaram a uma
choupana, mas não havia ninguém. Exaustos, embrenharam-se novamente no mato em
direção ao cume. Alcançaram a base do paredão perto do crepúsculo. Tiveram que
cavar um local onde conseguiram armar uma barraca... Passaram a noite
espremidos, no terreno inclinado... Na manhã seguinte puseram-se a procurar um
local que permitisse a escalada do paredão. Há quinze metros do cume, em um
trecho vertical, uma rocha se desprende e acaba acertando o joelho de um dos
excursionistas. Definitivamente, aquele setor não era propício para uma trilha.
Como não havia tempo hábil para novas tentativas, retornaram. No pé da Montanha
encontraram o morador da choupana, Livercino. Ele explicou que o melhor caminho
para chegar ali (Fazenda I-Nhó-Ó) era pelo Bairro Lambari e indicou uma fenda por onde
alguns moradores da região, eventualmente, costumavam subi-lo. O cume ficaria para a próxima...
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Cume do Ybiangi visto da Agulha de Maack. |
Algumas semanas após, o jovem convenceu seu pai a acompanhá-lo em uma nova incursão. Não havia trilha definida e os caminhos de gado pelo capim colonhão dificultavam a orientação. Chegaram próximos ao local indicado por Livercino e puseram-se a escalaminhar o paredão. Com alguma dificuldade chegaram ao cume. Contemplaram um 360 de tirar o fôlego. Instintivamente, o Jovem fixou como meta percorrer todos os cumes da fantástica Serra. Encontraram um caderno instalado algumas semanas antes pela equipe do escalador curitibano Andrey Romaniuk que, em 2011, em companhia de Alessandro Haiduke, conquistaram a Torre Menor do Ybiangi e a batizaram como ‘Agulha Reinhard Maack’. 2007 foi o divisor de águas na história do Pico Agudo. Os primeiros relatos e imagens na internet romperam definitivamente o anonimato da Montanha e começaram a atrair outros aventureiros de várias regiões do Paraná. Em apenas uma década, o turismo explodiu e, com ele, surgiram as pousadas, restaurantes, luz elétrica, guias credenciados, cobrança de ingressos e melhor infraestrutura (que reduziram em 2/3 a caminhada para o cume da Montanha). Neste período houve a instalação de correntes, degraus e cordas para o conforto e segurança dos turistas. Desde então, tal como as principais montanhas da Serra do Mar, o Ybiangi vem sofrendo com a degradação e o vandalismo. Atualmente, medidas de preservação e conscientização vêm sendo implementadas pelos gestores da RPPN e do Município de Sapopema.
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Visual do Morro Caviúna (Face Norte da Serra Grande) |
Com a atenção da mídia e dos turistas completamente voltadas para o Ybiangi, o jovem (perto dos seus 40 anos) seguia abrindo trilhas por sua amada Serra. Esteve no Taff (2008), Serra Chata (2015) e Agulha Reinhard Maack (2018). Em maio e junho de 2020, abriu a sonhada Travessia da Serra Grande, percorrendo o Pico do Meio, Portal e as cristas topográficas do platô da Face Norte batizadas como Calcanhar (1.054m), Guarani (1.036m) e Caviúna (1.040m). Como um dos protagonistas e testemunha da história recente do Ybiangi imagina que, em pouco tempo, o puro Montanhismo que ainda pode ser vivenciado nas cumeadas menos famosas e mais agrestes dos Agudos, fatalmente darão lugar as agências de turismo, comodidades, burocracia, ingressos e autorizações...
(Escrito para o Livro 'Puro Montanhismo: Os Conquistadores' de Júlio César Fiori e Henrique Paulo Schmidlin, p. 346 à 350)